The Last of Us – Temporada 2, Episódio 7: “Abby Road” | Crítica e Reflexão

ALERTA DE SPOILERS! A análise a seguir contém informações importantes sobre a trama do episódio 7 da segunda temporada de The Last of Us.

Com o episódio “Abby Road”, The Last of Us segue sua trajetória controversa na adaptação do jogo Part II para as telas. Após o episódio anterior, considerado por muitos fãs uma das partes mais fracas da temporada, o capítulo desta semana tenta retomar o fôlego, mas o desgaste emocional e narrativo já é evidente. A sensação é a mesma de quem, depois de quebrar acidentalmente um vaso precioso jogando bola dentro de casa, decide simplesmente continuar brincando como se nada tivesse acontecido. A série parece saber que já comprometeu parte da base de fãs, mas segue em frente, adaptando com fidelidade estética — e liberdade interpretativa — a obra original até onde for possível.

O episódio marca o encerramento da linha narrativa de Ellie nesta temporada, além de preparar terreno para o que promete ser a terceira temporada. É um momento importante, com um final impactante, embora previsível para quem conhece o jogo. Ao mesmo tempo, é também mais uma oportunidade para observarmos como os showrunners Craig Mazin e Neil Druckmann continuam a reinterpretar (ou distorcer, segundo alguns fãs) o arco emocional de personagens queridos.

Cirurgias improvisadas e feridas expostas

Logo no início, somos levados de volta à base de operações do grupo, com Jesse (interpretado por Young Mazino) tentando salvar Dina (Isabela Merced) dos ferimentos causados pelos Serafitas. A cena é crua e desconfortável: Jesse, ainda que despreparado, precisa remover uma flecha do joelho de Dina, usando álcool e coragem, sem anestesia. Dina, recusando qualquer bebida que pudesse aliviar a dor, acende a desconfiança de Jesse, que, apesar de ter sido tratado como um personagem irritante nesta versão, ainda demonstra inteligência e sensibilidade.

Enquanto isso, Ellie (Bella Ramsey) retorna ao esconderijo após sua jornada solitária. A preocupação dela é evidente, centrada totalmente em Dina. O cenário teatral, coberto de pôsteres antigos e grafites de bandas, serve como um pequeno oásis de memória pré-apocalíptica, mais uma vez bem recriado pela direção de arte da série. Detalhes assim são pequenos triunfos em meio a tantas decisões criativas discutíveis.

Confissões dolorosas

A sequência mais marcante do episódio acontece quando Dina desperta e ajuda Ellie a tratar arranhões nas costas, enquanto a interroga sobre o que aconteceu durante sua ausência. Ellie revela, aos poucos, o encontro com Nora (Tati Gabrielle). Ela descreve como conseguiu arrancar informações sobre Abby (Kaitlyn Dever), mencionando as enigmáticas palavras “Baleia” e “Roda”. A implicação é clara: Ellie usou da violência extrema para obter respostas.

No entanto, diferente do jogo, onde Ellie se mostra emocionalmente devastada por suas ações, a série parece insistir numa leitura mais fria e sádica da personagem. Ellie afirma que foi “fácil” machucar Nora, e admite que a deixou agonizando, possivelmente à mercê da infecção. É uma escolha narrativa que levanta debates. O jogo tratou esse momento como um trauma profundo, um ponto de virada na alma de Ellie. Já a série parece inclinada a reforçar uma visão mais brutal, na qual Ellie luta não apenas contra inimigos, mas contra a facilidade com que adere à violência.

Esse aspecto, reiterado por Mazin em entrevistas, transformou-se em um dos pontos mais criticados desta adaptação. A ideia de que Ellie seria “inherentemente violenta” reconfigura toda a leitura sobre a personagem e altera, para muitos, a potência emocional de sua trajetória. No jogo, esse episódio marca uma Ellie quebrada, sem palavras, enquanto na série, ela parece mais resignada e até mesmo confortável com a violência, ainda que culpada por sentir prazer nisso.

Dilemas de adaptação

Não há como ignorar a forma como a série escolheu ampliar o sofrimento de personagens como Nora. No jogo, seu destino já era cruel, mas na série a decisão de deixá-la abandonada, mutilada e infectada reforça uma tendência questionável: sacrificar a dignidade de personagens coadjuvantes para reforçar o arco emocional dos protagonistas. Isso é particularmente sensível no caso de Nora, uma das poucas personagens negras, cuja representação merecia mais cuidado.

De modo geral, o episódio “Abby Road” cumpre a função de fechar um ciclo e preparar o terreno para a próxima temporada, que deve, ao que tudo indica, abordar mais profundamente a trajetória de Abby. Ainda assim, fica a sensação de que a série perdeu parte do seu coração ao optar por um tom mais sombrio e menos reflexivo do que o jogo propunha.

Considerações finais

Estamos nos aproximando do fim da segunda temporada e, ao que tudo indica, a adaptação de The Last of Us Part II continuará dividindo opiniões. O episódio 7, embora tecnicamente bem executado e com momentos de tensão palpáveis, reforça escolhas narrativas que afastam a série de sua fonte original em termos de sensibilidade e profundidade emocional.

Se a ideia é continuar “jogando bola na sala” até 2029, como muitos fãs brincam, só nos resta esperar que, nos próximos episódios, a série consiga recuperar parte do que fez dela uma das adaptações mais celebradas dos últimos anos — e que, por enquanto, parece cada vez mais fragmentada.

Deixe um comentário

GG Interativo é o seu portal definitivo sobre games, séries, filmes e reviews.

Institucional

GG Interativo® 2025 – Todos os direitos reservados.