Rio de Janeiro Sombrio: A Operação Mais Letal e a Cronificação do Terror nas Favelas

O dia 28 de outubro de 2025 entrou para a história do Rio de Janeiro não como um marco de superação, mas como o ápice de uma violência de Estado que há décadas é normalizada. A megaoperação conjunta das polícias Civil e Militar nos complexos do Alemão e da Penha, oficialmente destinada a combater o Comando Vermelho (CV), tornou-se o episódio mais letal da história da segurança pública na cidade. O número oficial, divulgado pela Secretaria de Segurança Pública, é de 64 pessoas mortas, incluindo quatro policiais. Por trás da frieza estatística, no entanto, repousa uma verdade mais complexa e aterradora: o Rio de Janeiro institucionalizou o terror como ferramenta de gestão do território. Esta operação não é um desvio de rota; é o destino final de uma política de segurança pública que há muito abdicou de qualquer pretensão de proteger e servir a todos os cidadãos.

Para compreender a magnitude sombria do ocorrido, é preciso contextualizar a operação no longo histórico de violência letal do estado. Segundo um levantamento minucioso do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni-UFF), a ação nos complexos da Penha e do Alemão superou em mais do dobro a chamada Chacina do Jacarezinho, que em maio de 2021 resultou em 28 mortes e já havia chocado o país. O estudo do Geni-UFF vai além e escancara uma realidade que o poder público tenta mascarar sob o rótulo de “confrontos”. Entre janeiro de 2007 e outubro de 2025, a Região Metropolitana do Rio de Janeiro registrou a cifra monstruosa de 707 chacinas policiais, com um saldo de 2.905 civis e 31 policiais mortos. Estes dados não são meros números; são a prova empírica de que as chacinas policiais são a regra, e não a exceção, na gestão das periferias fluminenses.

Um olhar atento para a lista das operações policiais com maior número de óbitos desde 1990 revela um padrão perturbador que se intensificou dramaticamente em anos recentes. Os pesquisadores do Geni-UFF destacam que as três operações mais mortíferas na capital ocorreram durante o governo de Cláudio Castro (PL), reeleito em 2022. O terceiro lugar neste ranking macabro é a operação na Penha em maio de 2022, com 23 mortes. O Jacarezinho, com 28, ocupa o segundo. E agora, o triste primeiro lugar pertence à operação de outubro de 2025. Esta cronologia não é uma coincidência, mas a evidência de uma política de segurança deliberada, que prioriza a letalidade e o espetáculo de força sobre a inteligência, a investigação e, sobretudo, a preservação da vida.

A narrativa oficial, repetida à exaustão, é a de “confronto” e “reação a ataques dos criminosos”. No entanto, relatos de moradores e de organizações de direitos humanos que atuam nas comunidades frequentemente pintam um quadro diferente: de execuções sumárias, de invasões de domicílios sem mandado, de impedimento à atuação de socorristas e de um terror generalizado imposto à população civil, que vive o duplo trauma da ação do crime organizado e da violência estatal. A perda de quatro agentes de segurança também é uma tragédia que evidencia o ciclo vicioso de uma guerra sem fim, onde a vida, de todos os lados, é sistematicamente desvalorizada. O foco na body count, na contagem de corpos, substitui qualquer métrica de sucesso que envolva a redução da criminalidade, a apreensão de armas de grande poder ou a desarticulação de estruturas financeiras do tráfico.

Conclusão Crítica: A Necropolítica como Horizonte

A operação de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha não pode ser compreendida apenas como uma “ação policial”. Ela é a expressão máxima de uma lógica necropolítica em funcionamento no Rio de Janeiro – um termo cunhado pelo filósofo Achille Mbembe para descrever o poder soberano de ditar quem pode viver e quem deve morrer. O estado, que deveria ser o garantidor máximo da vida, assume o papel de seu gestor ativo através da morte seletiva.

A conclusão inevitável e crítica é que o Rio de Janeiro opera sob um estado de exceção permanente para uma parcela significativa de sua população. As favelas são tratadas como territórios inimigos, e seus moradores, como cidadãos de segunda categoria, cujas vidas são descartáveis em prol de um projeto de “paz” que se assemelha mais a uma ocupação militar. A repetição cíclica desses massacres, cada vez mais letais, demonstra que o sistema não falhou. Pelo contrário, ele está funcionando perfeitamente conforme desenhado: para aplacar o anseio por vingança das classes médias e altas, para consolidar um poder político que se apresenta como “duro com o crime” e para manter intactas as estruturas sociais e geográficas de segregação que sempre caracterizaram a cidade.

O verdadeiro terror no Rio de Janeiro, portanto, não é um evento esporádico. É a política de segurança do estado. Até que a sociedade fluminense e brasileira encarem essa realidade crua e exijam um paradigma radicalmente novo – que enxergue a vida favelada como vida digna de ser preservada, e não como dano colateral em uma guerra infinita –, o calendário do Rio continuará a ser marcado por novas datas sangrentas, que superarão os 64 mortos de 2025, em um ciclo aparentemente interminável de horror e esquecimento. O futuro da cidade depende de qual lado da história se escolhe estar: o da vida ou o da necropolítica.

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