Primeiro dia de julgamento da trama golpista: ausência de réus e Bolsonaro, covarde como sempre, não comparece

Tratado com prioridade pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e reconhecido internacionalmente como um marco histórico, começou nesta terça-feira (2) o julgamento de Jair Bolsonaro (PL) e de sete de seus aliados, apontados como integrantes do “núcleo crucial” na tentativa de golpe de Estado que abalou o Brasil. O primeiro dia foi marcado por ausências estratégicas, discursos firmes e embates tensos entre defesa e ministros da Corte.
Abertura do julgamento: ausência de Bolsonaro e resistência da defesa
Como já havia sido antecipado, Jair Bolsonaro não compareceu ao julgamento. A decisão confirma mais uma vez o comportamento de covardia política que marcou sua trajetória: em momentos cruciais, o ex-presidente prefere o silêncio e a distância. Embora esteja em prisão domiciliar desde o último dia 4, nada o impedia de solicitar autorização para estar presente na sessão. Optou, no entanto, por assistir de longe, deixando a defesa para advogados que, como se viu, buscaram explorar brechas jurídicas e desgastar o processo.
Entre os demais réus, a ausência também foi regra. Apenas Paulo Sérgio Nogueira, general e ex-ministro da Defesa, esteve presente ao lado de sua defesa. A ausência dos acusados no julgamento de um dos maiores ataques à democracia brasileira é, por si só, um retrato da tentativa de esvaziar o impacto simbólico do processo.
A sessão de abertura, conduzida pelo ministro Cristiano Zanin, presidente da Primeira Turma do STF, seguiu os ritos previstos: leitura do relatório do caso por Alexandre de Moraes e sustentação das acusações pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, que reforçou em uma hora de fala o peso das provas reunidas.
Moraes: firmeza contra pressões e recados à sociedade
Em sua manifestação, Alexandre de Moraes adotou o tom firme que já se tornou marca de sua atuação contra o golpismo. O ministro iniciou destacando a importância da defesa da soberania brasileira e do papel do STF como guardião da Constituição. Criticou ainda pressões externas e posicionou-se contra os discursos de anistia que circulam no Congresso, defendidos por aliados de Bolsonaro.
“A história nos ensina que a impunidade, a omissão e a covardia não são opções para a pacificação”, afirmou Moraes, ressaltando que qualquer condescendência diante de tentativas golpistas seria um convite para novos atentados contra a democracia.
O ministro também destacou que as investigações revelaram a existência de “uma verdadeira organização criminosa” que não apenas atentou contra as instituições brasileiras, mas tentou colocar o Supremo “sob o crivo de outro Estado estrangeiro” — numa referência indireta à influência de atores internacionais nos movimentos de desestabilização política no Brasil.
Bate-boca e tensão entre defesa e ministros
Se de um lado os ministros reforçaram a necessidade de rigor, de outro, as defesas dos réus adotaram postura combativa. Não faltaram bate-bocas e tentativas de constranger os magistrados, numa estratégia clara de transformar o julgamento em palco político. Ainda assim, a Corte manteve a postura de firmeza, lembrando constantemente os princípios do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório.
Esse equilíbrio é fundamental. Ao mesmo tempo em que demonstra força contra o golpismo, o STF reafirma que não se trata de um tribunal de exceção, mas sim de uma instância constitucional que atua dentro dos limites da lei.
A pressão das ruas e o risco da anistia
Enquanto o julgamento avançava em Brasília, as pressões políticas também se intensificavam. Grupos ligados à extrema-direita organizam manifestações para o feriado de 7 de Setembro, em defesa da anistia aos envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro. O tema divide o Congresso e já gera preocupação na sociedade civil e entre juristas.
A anistia, se aprovada, representaria não apenas um retrocesso histórico, mas também um insulto à memória de todos que defenderam a democracia ao longo da história do país. Permitir que atos de golpe sejam apagados sob o pretexto da “pacificação nacional” seria, na prática, validar a violência e incentivar novos ataques.
Conclusão crítica: um julgamento que vai além do passado
O julgamento da trama golpista não se resume a responsabilizar Bolsonaro e seus aliados. Trata-se de um divisor de águas na história política do Brasil. A ausência de Bolsonaro em seu próprio julgamento escancara a postura de quem sempre fugiu da responsabilidade: um líder incapaz de enfrentar as consequências de seus atos, que prefere se esconder atrás de discursos inflamados e de seus advogados.
Mais do que punir os culpados, o processo serve como um alerta ao futuro: a democracia não é inabalável. Ela precisa ser defendida todos os dias, especialmente contra aqueles que tentam usá-la para destruí-la por dentro. Se houver impunidade, o risco de novos atentados institucionais será ainda maior.
O Brasil vive um momento decisivo. A história mostrará se teremos a coragem de enfrentar o autoritarismo com firmeza, ou se repetiremos erros do passado, cedendo à tentação da anistia e da falsa conciliação. Como bem lembrou Alexandre de Moraes, impunidade e covardia não são caminhos possíveis. A democracia exige coragem — e o julgamento que se iniciou no STF é um teste direto da nossa capacidade de sustentá-la.