Missão: Impossível – Acerto de Contas: Quando o impossível vira rotina (e ainda assim nos prende)

Há algo quase poético — ou insano, dependendo do ponto de vista — em assistir Tom Cruise desafiando as leis da física com um sorriso de canto de boca e um olhar que mistura adrenalina com uma pitada de autossacrifício calculado. Missão: Impossível – Acerto de Contas – Parte Um (sim, um título longo o suficiente para precisar de um fôlego entre os travessões) é mais do que apenas o sétimo capítulo de uma franquia que se recusa a morrer. É um espetáculo de resistência narrativa, física e cinematográfica. E, pasme, ainda funciona.

A missão: renovar sem reinventar

Chegamos a um ponto da franquia em que ninguém mais está realmente interessado no que a IMF faz de verdade (além de dizer “esta mensagem se autodestruirá em 5 segundos”). O que queremos ver são as corridas alucinadas, as reviravoltas que fariam Jason Bourne ficar tonto e, claro, as acrobacias suicidas de Ethan Hunt — também conhecido como Tom Cruise sem dublê.

Acerto de Contas mergulha numa trama atualíssima, com uma inteligência artificial fora de controle que ameaça dominar o mundo digital. Parece exagerado? Talvez. Mas em tempos de algoritmos que decidem o que você vê, ouve e consome, a ficção parece mais pé no chão do que nunca. O vilão, desta vez, é quase invisível: uma entidade tecnológica chamada “A Entidade”, que lembra HAL 9000 em modo influencer maligno.

E é aí que o filme acerta: ele reconhece a ameaça contemporânea, joga sua ficha nesse cenário paranoico e entrega um roteiro que, embora recheado de clichês de espionagem, é conduzido com ritmo e tensão certeiros. O espectador nunca está totalmente seguro do que virá a seguir — e é isso que mantém a chama viva.

Tom Cruise: o último herói de ação?

É impossível falar de Missão: Impossível sem destacar Tom Cruise. Ele é o sangue, o suor (literalmente) e a alma da franquia. A cena do salto de moto no penhasco, feita de verdade, é a personificação do compromisso do ator com o cinema como espetáculo. Não é apenas vaidade ou marketing — é um grito de resistência em um mundo dominado por CGI e tela verde.

Cruise, aos 60 anos, corre como se ainda estivesse em Minority Report e luta como se a aposentadoria fosse uma ofensa pessoal. Ethan Hunt é um personagem que não evolui tanto no sentido psicológico — e tudo bem. Ele é o arquétipo do homem que salva o mundo não porque quer, mas porque não consegue não fazê-lo.

O elenco de apoio e os novos rostos

Rebecca Ferguson continua magnética como Ilsa Faust, mesmo que seu tempo de tela aqui seja mais limitado do que merecia. Hayley Atwell entra em cena como Grace, uma ladra carismática que traz nova energia ao grupo — sua química com Cruise é notável, os diálogos são afiados e há ali uma tensão interessante que não escorrega para o romance fácil.

Simon Pegg e Ving Rhames, os veteranos da equipe, mantêm o equilíbrio entre o alívio cômico e o peso emocional. E Esai Morales, como o vilão humano Gabriel, não brilha tanto quanto se esperava — talvez por estar constantemente ofuscado por uma ameaça digital mais intrigante.

Técnica e direção: o caos orquestrado de McQuarrie

Christopher McQuarrie, mais uma vez na direção, mostra que sabe conduzir o caos como poucos. As cenas de ação são construídas com precisão quase cirúrgica, e a edição é fluida o bastante para não perder o espectador em meio a perseguições, tiroteios e socos em câmera lenta. A sequência no trem é um primor de tensão e engenharia cênica, digno de aplausos.

Se há uma crítica mais objetiva, é o fato de que Acerto de Contas – Parte Um claramente sofre da “síndrome do meio do caminho”. Por ser uma história dividida, há muitas pontas soltas, personagens introduzidos sem fechamento e um desfecho que mais frustra do que satisfaz — ainda que essa seja, sim, a proposta.

Veredito: missão cumprida (quase)

Missão: Impossível – Acerto de Contas não reinventa a roda, mas a faz girar com força total. É entretenimento de alto nível, com respeito à audiência, atenção aos detalhes técnicos e um protagonista que parece ter feito um pacto com o próprio cinema para continuar desafiando o impossível. Pode ser só “mais um Missão”, mas é, ao mesmo tempo, um lembrete do que o blockbuster pode ser quando há paixão envolvida.

A parte dois vem aí. E se depender de Tom Cruise, vamos sair do cinema de boca aberta mais uma vez.

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