Corra que a Polícia Vem Aí: Liam Neeson e o retorno genial das sátiras no cinema

À primeira vista, ver o nome de Liam Neeson estampado no pôster de Corra que a Polícia Vem Aí pode causar estranhamento. Um ator conhecido por papéis intensos, sérios e muitas vezes sombrios, vestido de terno e realizando um espacate no maior estilo pastelão? A associação parece improvável. Afinal, estamos falando do indicado ao Oscar por A Lista de Schindler (1993), um dos dramas mais marcantes do cinema, que se reinventou no final dos anos 2000 como um imbatível herói de ação com Busca Implacável (2008), gerando uma série de filmes no mesmo estilo ao longo de sua carreira.

Mas, curiosamente, a escolha não é tão absurda assim. Ela segue a mesma lógica que transformou Leslie Nielsen, astro do filme original, em um ícone da comédia. Antes de arrancar gargalhadas como o detetive Frank Drebin, Nielsen construiu uma sólida carreira em papéis dramáticos, estrelando o filme-catástrofe As Aventuras de Poseidon (1972), a ficção científica Planeta Proibido (1956) e até interpretando políticos corruptos e vilões em produções diversas. Sua transição para o humor foi inesperada, mas justamente esse contraste entre a postura séria e a comédia absurda se tornou a essência do sucesso da franquia.

Já se passaram mais de 35 anos desde a estreia de Nielsen como Drebin, e o cenário do cinema de comédia mudou drasticamente. Vivemos um momento em que o gênero não ocupa mais o espaço de outrora nas bilheterias, migrando em grande parte para o streaming. Os grandes fenômenos do humor no cinema se tornaram raros, com títulos como Superbad (2007) e Se Beber, Não Case (2009) sendo alguns dos últimos exemplos de grande repercussão. Nesse contexto, Liam Neeson encara um desafio muito mais complexo do que enfrentar traficantes albaneses: resgatar não só o espírito da comédia no cinema, mas, especificamente, a arte da sátira no formato de blockbuster, algo praticamente esquecido no entretenimento atual.

O novo Corra que a Polícia Vem Aí, dirigido por Akiva Schaffer (Tico e Teco: Defensores da Lei), acerta ao manter a duração enxuta — menos de 90 minutos — evitando que a piada se alongue além do necessário. A trama apresenta Frank Drebin Jr., interpretado por Neeson, um detetive que segue os passos do pai no Police Squad, uma equipe que já viveu seus dias de glória, mas que agora está em declínio devido a seus métodos questionáveis e nada convencionais. Drebin Jr., com seu charme trapalhão herdado de família, precisa resolver um assassinato que ameaça encerrar de vez as atividades da unidade, ao mesmo tempo que luta para preservar o legado do pai.

Se, no passado, a franquia mirava críticas à política norte-americana, ao governo Bush e à Guerra do Golfo, a nova versão ajusta seu alvo: os bilionários, as Big Techs e a estagnação das instituições dos EUA. Essa atualização dá frescor à história, mas mantém a essência do humor absurdo. Muitas das melhores piadas surgem justamente do contraste entre a polícia antiquada e o mundo moderno, explorando de forma hilária a violência policial, a burocracia e a forma quase infantil com que alguns agentes tratam o distintivo como um escudo moral.

E é aqui que a escolha de Liam Neeson brilha. Colocar um ator reconhecido atualmente como um especialista em “partir pescoços” e resgatar pessoas em situações extremas para viver um policial inepto e desajeitado é, no mínimo, um golpe de mestre. Ele mantém o semblante sério e a postura ameaçadora, mas em situações completamente ridículas, criando um efeito cômico irresistível. É como se Bryan Mills, de Busca Implacável, tivesse caído dentro de um episódio de Chapolin Colorado.

O filme também demonstra uma autoconsciência sobre o mundo digital em que vivemos. Com o consumo rápido e fragmentado de conteúdo — muitas vezes reduzido a esquetes no TikTok —, Corra que a Polícia Vem Aí se posiciona como um lembrete de que ainda há espaço para a comédia física, as sátiras políticas e o humor nonsense no cinema. Não é tarefa fácil em um tempo em que a atenção do público é disputada segundo a segundo, mas a química entre Neeson, o elenco de apoio e até a participação inusitada de Pamela Anderson mostram que, quando bem executadas, essas produções continuam relevantes.

Conclusão Crítica

O novo Corra que a Polícia Vem Aí é mais do que uma tentativa de reboot nostálgico. Ele é um manifesto a favor de um tipo de humor que não teme ser bobo, físico e exagerado, mas que, ao mesmo tempo, sabe cutucar as feridas da sociedade contemporânea. Akiva Schaffer entende que a chave não é tentar replicar a fórmula exata dos filmes antigos, mas adaptá-la a um público que vive em um fluxo constante de informações e estímulos.

Liam Neeson prova, com brilhantismo, que ainda há espaço para subverter expectativas no cinema. Sua presença não apenas sustenta o filme, mas simboliza a ponte entre o passado e o presente do gênero. Em um mercado saturado de sequências, remakes e fórmulas previsíveis, Corra que a Polícia Vem Aí se destaca como um lembrete de que a sátira bem feita é uma arma poderosa — capaz de provocar riso, reflexão e, quem sabe, reacender a chama da comédia nas telonas.

Deixe um comentário

GG Interativo é o seu portal definitivo sobre games, séries, filmes e reviews.

Institucional

GG Interativo® 2025 – Todos os direitos reservados.