Alien: Earth estreia amanhã – qual expectativa?

Desde 1979, o universo de Alien nos convida a especular, temer e se maravilhar com o desconhecido. O clássico de Ridley Scott marcou a história do cinema de ficção científica ao apresentar os Xenomorfos, criaturas tão fascinantes quanto letais, e lançar perguntas que permanecem até hoje no imaginário dos fãs: de onde vieram os ovos alienígenas? Quem pilotava aquela nave misteriosa? Assim como aconteceu com os tripulantes da Nostromo, o espectador também foi infectado pelo desejo de respostas. Ao longo das décadas, a franquia entregou alguns dos melhores – e também piores – momentos ao tentar esclarecer esses mistérios.
Contudo, responder demais nem sempre expande o universo; às vezes, mata o encanto. É justamente por isso que Alien: Earth desperta tanta curiosidade. A série não busca preencher todos os vazios deixados pelos filmes, mas criar novos espaços, novos enigmas. Essa escolha certamente frustrará aqueles que priorizam a coerência absoluta, já que a trama acontece antes do filme de 1979 e mostra humanos (e diferentes modelos de sintéticos) entrando em contato com um Xenomorfo muito antes de Ripley enfrentar o “Oitavo Passageiro”. Surge, então, a questão inevitável: isso diminui o impacto do encontro original no cinema ou acrescenta novas camadas à mitologia?
Na cronologia, Alien: Earth chega depois de sete filmes canônicos (nove, se contarmos Alien vs. Predador), inúmeros videogames, quadrinhos e livros. Qualquer “dano” que a série possa causar à continuidade é compensado pela ousadia de explorar territórios inéditos – neste caso, a própria Terra. Desde o início, Alien flertava com a ideia de trazer a ameaça para o nosso planeta. Roteiros descartados, como o de Joss Whedon para Alien: A Ressurreição, e diversas propostas internas da 20th Century Fox já consideravam essa possibilidade. Mas quem finalmente realizou esse salto foi Noah Hawley, dentro da estratégia da Disney de expandir suas franquias no streaming. Diferente de projetos que se tornaram apenas produtos comerciais, aqui temos algo que, como Predador: A Caçada, mostra potencial artístico e narrativo real.
A trama apresenta Wendy (Sydney Chandler), a primeira híbrida entre humanos e sintéticos, criada pela Prodigy Corporation – uma das cinco megacorporações que controlam a Terra no futuro. O mundo de Alien: Earth é corporativista e distópico, onde países cederam espaço a conglomerados comandados por trilionários. Entre eles está Boy Kavalier (Samuel Blenkin), um visionário obcecado por transferir a consciência humana para corpos artificiais, buscando a imortalidade. Sua empresa rivaliza com a temida Weyland-Yutani, que continua sua busca por poder e recursos além das estrelas.
O conflito central começa quando uma nave da Weyland-Yutani cai em território da Prodigy, levando consigo cinco espécimes alienígenas. Boy e sua equipe veem nisso uma oportunidade, mas o desastre coloca Facehuggers e outras criaturas igualmente perigosas à solta em um ambiente urbano controlado por corporações. Essa situação conecta Wendy a seu irmão CJ (Alex Lawther), médico da Prodigy, e desperta a atenção de Boy para o potencial militar e biotecnológico dos Xenomorfos. Paralelamente, Yutani (Sandra Yi Sencindiver) fará de tudo para recuperar os espécimes, mesmo que isso signifique desencadear ainda mais caos.
O mais interessante é que Hawley não se limita à ação ou ao terror; ele investe em expandir a biologia e as interações das criaturas, oferecendo detalhes inéditos para os fãs mais atentos. Algumas dessas descobertas devem permanecer como surpresas para preservar o impacto, mas já é possível afirmar que o nível de construção de mundo impressiona. A estética da série também se afasta das influências diretas de Ridley Scott, James Cameron ou Fede Álvarez, construindo uma identidade visual e narrativa própria.
Em termos de expectativa, Alien: Earth tem a vantagem de não se apresentar como mais um “produto derivado” que vive da nostalgia. Sua proposta é criar novas histórias dentro do mesmo universo, apostando em personagens inéditos, temas filosóficos – como a imortalidade e a ética da inteligência artificial – e um cenário político-corporativo que reflete preocupações bem reais do nosso mundo. É uma abordagem que pode dividir o público, mas que demonstra coragem criativa.
Conclusão crítica
A estreia de Alien: Earth representa um momento importante para a franquia. Ao mesmo tempo que se arrisca a mexer com o cânone e a mexer nas emoções dos fãs mais puristas, a série abraça a ideia de que o universo de Alien não precisa viver apenas do passado. Se der certo, pode abrir espaço para novas histórias ousadas, que respeitem a essência do terror cósmico, mas sem se aprisionar aos mesmos cenários e personagens.
O verdadeiro teste será ver se Alien: Earth consegue equilibrar novidade e reverência, oferecendo algo tão memorável quanto o frio na espinha que sentimos ao ver, pela primeira vez, um Facehugger agarrar sua vítima. Se Noah Hawley entregar o que promete, estaremos diante não apenas de uma boa série, mas de um marco que prova que, mesmo após 45 anos, Alien ainda tem muito para nos assustar – e encantar.