A Guerra dos Mundos (2025) no Prime Video: Uma Invasão Alienígena Que Fracassa no Roteiro

O Prime Video lançou de surpresa o novo A Guerra dos Mundos (2025), estrelado por Ice Cube e Eva Longoria, e prometendo uma releitura moderna do clássico de H. G. Wells. Filmado no formato screenlife, a produção tenta trazer a tensão da invasão alienígena para as telas de computador e celulares, explorando temas como vigilância e privacidade digital. No entanto, a execução tropeça em atuações limitadas, excesso de referências corporativas e um roteiro que mais parece um longo vídeo de internet do que um filme capaz de prender o espectador.
Anunciado de surpresa durante a San Diego Comic‑Con, o novo A Guerra dos Mundos chegou ao Prime Video com uma proposta ousada: transformar a clássica história de H. G. Wells em um screenlife, formato em que toda a trama é contada por meio de telas de computador e dispositivos móveis. Dirigido por Matt Drake e estrelado por Ice Cube e Eva Longoria, o filme tinha nas mãos a chance de reinventar um dos maiores marcos da ficção científica. No entanto, o que poderia ser um suspense moderno se transforma em um amontoado de ideias mal executadas, com ritmo irregular e identidade confusa.
Uma ideia promissora no papel
Na trama, Ice Cube interpreta Will Radford, um funcionário do Departamento de Segurança dos EUA que, por meio de câmeras de vigilância e transmissões online, é um dos primeiros a perceber que uma invasão alienígena está acontecendo. Enquanto monitora vídeos e mensagens, ele também precisa cuidar de seus filhos e do genro, tentando protegê-los em meio ao caos.
A escolha de narrar tudo pelas telas poderia funcionar como metáfora para temas atuais, como a vigilância em massa, a privacidade digital e a dependência das redes sociais. Produções como Buscando… e Host já provaram que esse formato pode gerar tensão e imersão quando bem explorado. Infelizmente, aqui a execução não sustenta a proposta.
Entre ficção científica e propaganda disfarçada
O maior problema do filme é que ele parece mais interessado em fazer referência a serviços corporativos do que em criar uma narrativa sólida. O ponto crucial da história envolve drones de entrega e soluções que lembram diretamente a logística de grandes empresas — ao ponto de dar a sensação de estar assistindo a um longo comercial com efeitos especiais.
Essa escolha narrativa compromete a imersão e enfraquece a mensagem que poderia criticar justamente a dependência dessas corporações. Em vez de gerar reflexão, o filme se rende ao mesmo sistema que tenta ironizar.
Atuação e estética que não se conectam
Ice Cube mantém seu carisma e o humor característico, mas a atuação fica limitada a reações em frente à câmera, como se o personagem fosse um “youtuber de plantão” comentando sobre o apocalipse. A falta de interação física com o mundo ao redor tira o peso dramático das cenas. Eva Longoria, apesar de seu talento, também é subaproveitada em um papel que pouco acrescenta à trama.
Visualmente, a estética documental poderia reforçar o realismo, mas o resultado é inconsistente. A fotografia não cria atmosfera de ameaça, os efeitos visuais variam em qualidade e o ritmo oscila entre momentos arrastados e cortes abruptos.
Comparações inevitáveis com versões anteriores
Quando comparado às adaptações anteriores — como a de 1953 e a versão de Steven Spielberg em 2005 —, este remake perde força. Spielberg, por exemplo, conseguiu equilibrar drama familiar, tensão crescente e espetáculos visuais, mantendo a essência de H. G. Wells. Aqui, o peso da invasão alienígena é substituído por uma sucessão de telas, chamadas de vídeo e clipes online, que raramente despertam emoção genuína.
Mesmo produções intimistas de ficção científica, como Cloverfield ou REC no terror, souberam usar o ponto de vista restrito para criar imersão. Em A Guerra dos Mundos (2025), o recurso se transforma em um obstáculo que limita a narrativa em vez de potencializá-la.
Recepção crítica e reação do público
A recepção foi amplamente negativa. Críticos apontam que a proposta inovadora não se sustenta, e que o filme carece de tensão, desenvolvimento de personagens e coerência tonal. Nas redes sociais, muitos classificam a obra como “um vídeo longo e caro para redes sociais” em vez de um longa-metragem digno do nome que carrega.
Há, no entanto, um pequeno grupo que defende o filme como um “prazer culposo” — tão exagerado e peculiar que acaba divertindo, mesmo sem convencer como obra séria.
Conclusão
O novo A Guerra dos Mundos é um exemplo claro de como uma boa ideia pode se perder na execução. A tentativa de modernizar a narrativa com estética digital e crítica social não consegue se transformar em uma experiência cinematográfica envolvente.
Ao apostar todas as fichas no formato screenlife, o filme sacrifica o que sempre fez a história de Wells funcionar: a sensação de vulnerabilidade humana diante de um evento incontrolável e esmagador. Aqui, a ameaça alienígena nunca parece real; tudo soa distante, filtrado por janelas de vídeo e interfaces digitais que mais afastam do que aproximam o espectador.
Em vez de uma releitura intensa e instigante, recebemos um produto que parece mais preocupado em dialogar com o consumo rápido de conteúdo do que em contar uma boa história. No fim, a verdadeira guerra perdida não é contra alienígenas, mas contra a própria essência do cinema.