Trump afirma que Netanyahu aceitou proposta de paz em Gaza: realidade ou retórica diplomática?

Trump afirma que Netanyahu aceitou proposta de paz em Gaza: realidade ou retórica diplomática?
Trump afirma que Netanyahu aceitou proposta de paz em Gaza: realidade ou retórica diplomática?

Na última segunda-feira, 29, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, teria concordado com sua proposta de paz para Gaza. O pronunciamento ocorreu após reuniões oficiais na Casa Branca, em Washington D.C., e rapidamente chamou atenção internacional por sinalizar uma possível mudança no curso do conflito que assola a região há décadas.

Trump, em sua fala, agradeceu o apoio de países do Oriente Médio e da Europa na elaboração do plano, destacando o aceite de Netanyahu como um passo decisivo rumo a um cessar-fogo. “Estamos muito próximos de alcançar um acordo histórico. Acredito que, se houver boa-fé, podemos pôr fim a décadas — até séculos — de violência e abrir um novo capítulo de segurança e prosperidade para o Oriente Médio”, declarou o presidente americano.

Netanyahu, por sua vez, endossou o discurso. Em sua resposta, afirmou que apoia o plano por atender objetivos estratégicos de Israel, como o retorno dos reféns sequestrados, a destruição das capacidades militares do Hamas, o fim de sua estrutura política e a garantia de que Gaza não voltará a representar ameaça direta. “Esse acordo pode ser a base para a vitória de Israel e, ao mesmo tempo, um caminho para estabilidade”, disse o primeiro-ministro.

O que está no plano de paz proposto por Trump?

Segundo informações obtidas pela Associated Press (AP) por meio de diplomatas árabes, a proposta americana é composta por 20 pontos centrais, entre os quais se destacam:

  1. Cessar-fogo imediato em Gaza.
  2. Liberação de todos os reféns israelenses em até 48 horas. Atualmente, estima-se que 48 pessoas estejam em poder do Hamas, sendo apenas cerca de 20 vivas.
  3. Retirada gradual das tropas israelenses da Faixa de Gaza.
  4. Fim do governo do Hamas no território e desarmamento completo do grupo.
  5. Libertação de centenas de palestinos presos em Israel, incluindo detentos com penas de prisão perpétua.
  6. Criação de uma força de segurança internacional para administrar Gaza no período pós-guerra.
  7. Formação de um comitê palestino de tecnocratas para gerir os assuntos civis do território, que posteriormente transferiria o poder para uma Autoridade Palestina reformada.

Um ponto importante do plano é que ele não prevê a expulsão dos palestinos de Gaza, afastando temores de uma limpeza étnica ou de deslocamentos forçados. A proposta foi previamente discutida por Trump com líderes árabes em Nova York, o que reforça a tentativa americana de legitimar o processo com o aval regional.

Obstáculos para a implementação

Apesar do otimismo no discurso, o acordo esbarra em desafios profundos. O Hamas, que controla Gaza desde 2007, exige como condição mínima o fim da guerra e a retirada total de Israel do território, dentro de um cessar-fogo permanente. Do lado israelense, há setores políticos e militares que rejeitam qualquer negociação que implique na sobrevivência institucional do Hamas, mesmo sob vigilância internacional.

Além disso, o plano prevê a libertação de prisioneiros palestinos — um dos pontos mais polêmicos em Israel, onde familiares de vítimas de ataques terroristas se opõem fortemente à ideia. Por outro lado, muitos palestinos consideram insuficiente a substituição do Hamas por uma força internacional, vista por alguns como mais uma forma de tutela externa.

Outro entrave é a credibilidade internacional de Donald Trump, que enfrenta críticas por suas posições anteriores em relação ao conflito, especialmente após reconhecer Jerusalém como capital de Israel em 2017, medida que foi condenada por grande parte da comunidade internacional e aumentou a desconfiança palestina em relação a Washington como mediador neutro.

Repercussão global

O anúncio gerou reações mistas. Na União Europeia, diplomatas saudaram a possibilidade de diálogo, mas reforçaram a necessidade de que qualquer acordo contemple uma solução política duradoura baseada em dois Estados. Países árabes, como Egito e Jordânia, que historicamente atuam como mediadores, veem com cautela a proposta, preocupados com a estabilidade interna que um eventual colapso do Hamas pode gerar em seus próprios territórios.

Organizações humanitárias, por sua vez, pedem que, além das questões militares e políticas, o plano inclua compromissos concretos de reconstrução de Gaza, onde a infraestrutura básica foi devastada por anos de bloqueios e ofensivas militares.

Conclusão

O anúncio feito por Trump e o apoio declarado de Netanyahu soam como um movimento ousado em meio ao desgaste político que ambos enfrentam em seus países. No entanto, a história recente do Oriente Médio mostra que propostas de paz, embora recorrentes, muitas vezes não passam de exercícios diplomáticos destinados a gerar manchetes momentâneas.

O plano, ainda que ambicioso, enfrenta obstáculos estruturais: a desconfiança mútua entre israelenses e palestinos, o peso das memórias de violência e a resistência interna de setores que lucram politicamente com a continuidade do conflito. Além disso, a ausência de um diálogo direto e efetivo com a população palestina coloca em dúvida a legitimidade de qualquer arranjo firmado “de cima para baixo”.

Mais do que anunciar acordos, o verdadeiro desafio está em construir confiança, garantir justiça para ambos os povos e criar mecanismos que evitem o ressurgimento do ciclo de violência. Sem isso, qualquer proposta corre o risco de ser apenas mais uma promessa que se perde no extenso histórico de tentativas fracassadas de paz na região.

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